

Por Gabriel Guedes
Fonte: Correio do Povo
Há mais de quatro meses do início da vacinação contra a Covid-19 no Brasil, quando a enfermeira Mônica Calazans recebeu a primeira dose da Coronavac, no dia 17 de janeiro, em São Paulo (SP), o país já experimenta, ainda que em pequenos casos isolados, o poder da imunização frente a uma pandemia da magnitude como a atual. Lugares onde a vacinação foi praticamente concluída, como nos hospitais de Porto Alegre, onde o número de funcionários gravemente doentes pelo novo coronavírus diminuiu mais de 80% em algumas das instituições, ou no município de Serrana, em São Paulo, onde o Instituto Butantan vacinou quase toda a população, indicando redução de 80% nos casos confirmados da doença, mostram que a contenção da pandemia está no caminho certo.
Contudo, ao longo do mês de maio, ficou escancarado que o avanço na vacinação no Brasil esteve limitado devido à dependência da importação de insumos. A falta de produção nacional do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) para fabricar a Coronavac emperrou a aplicação da segunda dose em várias localidades. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) também vê ameaçada a produção da vacina AstraZeneca em território nacional por falta de regularidade no envio das matérias-primas. E, enquanto a vacinação patina, ao ter ainda muito espaço para infecção entre os não vacinados, o vírus que provoca a Covid-19 tem a oportunidade de se aperfeiçoar a cada replicação, o que pode, no futuro, até mesmo comprometer tudo o que foi feito até agora.
“Há dados mostrando que, com as primeiras doses da Pfizer, diminuíram os casos. Há outros dados que mostram que diminuiu a hospitalização da faixa dos 90 anos ou mais. Então, as vacinas estão fornecendo uma proteção interessante, o que é visível. Mas elas poderiam ser potencializadas se a gente não diminuísse tanto as medidas de distanciamento”, acredita Mellanie Fontes-Dutra, biomédica, mestre e doutora em neurociências, idealizadora e coordenadora da Rede Análise Covid-19. As cenas que os brasileiros mais invejam em outros países, como o fim da obrigatoriedade do uso da máscara e hospitais que antes estavam cheios e agora estão vazios, segundo a pesquisadora, ainda demorarão a acontecer por aqui. Isso porque em países como Israel e Reino Unido, por exemplo, concomitante com a vacinação, houve a manutenção de medidas restritivas. “Mas se a gente tiver vacinação, boa adesão às restrições adequadas, e eu não estou falando de lockdown, mas de coisas factíveis para o país, o benefício da vacina vai ser percebido mais rápido. Mesmo atingindo 30% ou 40% (da população), a gente pode ainda ver transmissão acelerada, porque tem muitas pessoas suscetíveis na população e muita flexibilização. Em Israel, eles perceberam os efeitos da vacinação rapidinho porque fizeram junto o lockdown.”
A tal “imunidade de rebanho”, tão equivocadamente invocada ao longo desta pandemia no país, segundo a imunologista Cristina Bonorino, professora titular da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e membro dos comitês científico e clínico da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), só pode ser alcançada por meio da vacinação e não pela contaminação generalizada da população. “A vacina não é suficiente se for só para um número pequeno de pessoas. Imunidade de rebanho é um conceito criado para explicar a vacinação em massa.
Quando chegar em 50%, a gente vai ver uma grande diferença. Antes disso será difícil. Só em 70% vamos ter a imunidade da população”, coloca a médica. Mellanie reitera que “as vacinas são o melhor meio de controle a curto, médio e longo prazos contra doenças infectocontagiosas. Como a gente está em uma situação muito grave, a curto prazo a gente precisa adotar vacinas com medidas de enfrentamento para fazer o controle à medida que vamos imunizando a população.”